Menu · Bolfarine & Bussab · Capítulo 1 · págs. 1–36

Noções básicas

O capítulo sem fórmulas — e o mais cobrado em questão discursiva. Vocabulário, decisões de projeto, e o argumento de por que uma amostra pode ser melhor que o censo.

Ao final você deve saber fazer
Como usar esta página

Um passo por vez. Cada um termina com uma pergunta — responda antes de abrir.

Aqui quase não há conta. O que se cobra é vocabulário preciso e argumento. Por isso as checagens são de julgamento, não de cálculo.

1 Por que não fazer o censo

Passo 1 de 12

Custo e prazo são o motivo óbvio. O motivo bom é outro: qualidade.

Menos unidades permitem mais cuidado em cada uma — e o erro que sobra costuma ser menor que o de um censo mal feito.

Custo

entrevistar 1 000 em vez de 200 000

Tempo

resultado em semanas, não anos

Qualidade

entrevistador treinado, supervisão, revisita

Viabilidade

às vezes medir destrói a unidade

O argumento que vale a nota

Um censo tem erro amostral zero e erro não amostral alto: milhares de entrevistadores, pressa, controle fraco, não resposta.

Uma amostra tem erro amostral calculável e erro não amostral baixo. O erro total pode ser menor na amostra — e, ao contrário do censo, você sabe dizer de quanto ele é.

Quando o censo se justifica: população pequena, necessidade legal de contar todos, ou exigência de resultado para subdivisões muito finas (cada bairro, cada empresa).

Uma fábrica quer saber a vida útil média das lâmpadas que produz. Censo ou amostra?

Amostra, obrigatoriamente. Medir a vida útil queima a lâmpada — o censo destruiria a produção inteira.

É o caso em que amostrar não é escolha de custo: é a única forma de haver informação.

2 Do objetivo ao parâmetro

Passo 2 de 12

Entre a pergunta que interessa e o número que se calcula há três traduções. Cada uma pode errar.

E é aqui, antes de qualquer fórmula, que a pesquisa costuma se perder.

objetivo constructo variável parâmetro o que se quer decidir a ideia, não observável o que se mede o número-alvo nenhuma fórmula protege de errar aqui
Escolher a variável que representa o constructo é decisão do pesquisador — e não há teste estatístico que a valide.

Um exemplo concreto

Objetivo: decidir se lançamos um produto popular na cidade.

Constructo: poder de compra das famílias.

Variável: renda familiar declarada, em reais.

Parâmetro: a renda média, μ.

Renda declarada representa bem poder de compra? Talvez não — e esse é um problema real, não estatístico.

Duas razões que se confundem

Com Y = despesa com comida e X = renda:

R=∑Yi∑Xi

“que fração da renda do conjunto vai em comida”

R¯=1N∑iYiXi

“qual a fração média por família”

Números diferentes, perguntas diferentes. Escolher errado é erro de objetivo, não de conta.

Você quer medir “satisfação do cliente”. Qual é o constructo, e qual poderia ser a variável?

Constructo: satisfação — um estado mental, não observável.

Variável: nota de 0 a 10 numa pergunta, ou taxa de recompra, ou número de reclamações. Três variáveis diferentes para o mesmo constructo, e elas não dão a mesma resposta.

Por isso a escolha tem de ser justificada no projeto, não escondida na metodologia.

3 As três unidades

Passo 3 de 12

Sobre quem se quer saber, o que é sorteado, e quem abre a porta. Podem ser três coisas distintas.

Quando a amostral não é a elementar, o plano já é de conglomerados ou de estágios — capítulos 7 e 8.

Elementar

de quem se quer a informação — o domicílio

Amostral

o que é sorteado — o quarteirão

De resposta

quem responde — o morador que atende

Pesquisa domiciliar típica

Sorteio quarteirões num mapa (unidade amostral).

Quero dados de cada domicílio do quarteirão (unidade elementar).

Quem me atende é um morador adulto (unidade de resposta), que fala pelos outros.

Quando as três coincidem

Só quando há uma lista das próprias unidades elementares e se sorteia direto dela — e cada uma responde por si.

Exemplo: sortear alunos de uma lista de matrícula e entrevistar cada um.

É o caso da AAS do capítulo 3. Fora dele, quase nunca coincidem.

Por que isso muda a conta

A aleatoriedade entra pela unidade amostral. Se você sorteia quarteirões, a probabilidade que você controla é a do quarteirão — não a do domicílio.

E domicílios do mesmo quarteirão se parecem entre si, o que reduz a informação trazida por cada um. É o que o capítulo 7 chama de correlação intraclasse.

Uma pesquisa sorteia escolas, e dentro delas entrevista todos os professores. Quais são as três unidades?

Amostral: a escola. Elementar: o professor. De resposta: o próprio professor.

Amostral ≠ elementar e observam-se todos os elementos da unidade sorteada: isso é amostragem por conglomerados em um estágio, o capítulo 7.

Se em vez disso ela sorteasse alguns professores de cada escola, seria amostragem em dois estágios — capítulo 8.

4 As três populações, e sobre qual valem as conclusões

Passo 4 de 12 · o passo mais cobrado do capítulo

A que você quer descrever, a que a sua lista descreve, e a que de fato podia ser sorteada.

A estatística só fala da última. Chegar da última à primeira é argumento, não probabilidade.

  1. População alvo. A que você quer descrever. Começa genérica (“todos os moradores do município”) e vai sendo afinada até virar algo definível: “adultos de 18 anos ou mais da região urbana de X”.
  2. População referida. A que o sistema de referência descreve — o mapa, o cadastro, a lista que você conseguiu. Raramente existe o rol de moradores; existem mapas de quarteirões, cadastros de clientes, listas telefônicas.
  3. População amostrada. A que sobrou depois do campo: fora os endereços inexistentes, as recusas, os domicílios fechados, os condomínios inacessíveis — e dentro os conjuntos novos que ninguém previu.
A frase que responde à questão de prova

alvo⊇referida⊇amostrada, e as diferenças são erros de cobertura.

A amostra veio da população amostrada: é só sobre ela que a inferência estatística vale. Estender à referida exige analisar o que se perdeu; estender à alvo exige argumento substantivo. Nenhum dos dois é conta.

Seis painéis: a população alvo (contorno irregular), a população referida (grade), as unidades selecionadas (células cinza), as unidades perdidas (células pretas), a população amostrada (grade com um canto preto) e a sobreposição das três; embaixo, um diagrama com os três contornos rotulados alvo, referência e amostrada.
Figura 1.1 — Comparações das populações alvo, referida e amostrada. A grade é o sistema de referência (a lista que se consegue); o contorno irregular é a população alvo (a que se quer); as células escuras são as unidades perdidas no campo, que retiram um canto da população referida e definem a população amostrada. As três se sobrepõem mas não coincidem.
Uma pesquisa telefônica sorteia números de uma lista fixa. Quem fica de fora de cada população?

Alvo: todos os adultos da cidade.

Referida: só quem tem telefone fixo cadastrado — já saem os que só têm celular, e esses não são um grupo aleatório (são mais jovens, mais urbanos).

Amostrada: dos cadastrados, só quem atende e aceita responder — saem os que trabalham fora o dia todo e os que desconfiam.

Se o resultado for “68% dos adultos aprovam”, a frase honesta é: “68% dos adultos com fixo cadastrado que atenderam e aceitaram responder”. O resto é extrapolação, e precisa ser defendida.

5 Estrato × subclasse

Passo 5 de 12

A mesma divisão da população, decidida em dois momentos diferentes — e com consequências diferentes.

Estrato é antes do sorteio. Subclasse é depois, na análise.

Estrato

Divisão usada no sorteio.

Você separa o cadastro em Sul e Norte, e decide: 400 de cada.

Nh é conhecido. nh é constante, fixado por você.

Precisão garantida em cada região.

Subclasse (domínio)

Divisão descoberta na análise.

“E entre os aposentados da amostra?” — você não sabia quem era aposentado antes de perguntar.

O tamanho na amostra é aleatório: pode sair 30, pode sair 12.

Variância maior que a de um estrato do mesmo tamanho, porque nh também varia.

A tentação, e a solução de compromisso

Há uma pressão forte para querer resultado separado para tudo: região × sexo × faixa etária × renda. Isso multiplica estratos e leva a tamanhos de amostra inviáveis.

A saída que o livro recomenda: os fatores básicos viram estratos; os secundários ficam como subclasses, analisados com a precisão que sobrar.

Você quer publicar um número por região e um por faixa de renda. Qual vira estrato?

Região, porque você a conhece antes de sortear (está no cadastro, no mapa).

Faixa de renda você só descobre perguntando — então ela só pode ser subclasse, a menos que exista um cadastro prévio de renda, o que é raro.

É a regra prática: só pode ser estrato o que você já sabe antes de bater na porta.

6 Como os dados chegam

Passo 6 de 12

Investigação por levantamento, experimento ou observação; coleta por entrevista, questionário, registro ou aparelho.

Cada combinação troca custo por controle.

a. participação do pesquisador nos resultados experimentação levantamento b. objetivo da análise descritivo analítico c. complexidade dos dados simples multivariado d. amplitude da coleta censo amostra 2 × 2 × 2 × 2 = 16 tipos de pesquisa quantitativa Neste livro (caixas destacadas): levantamento · descritivo · simples · amostra
Figura 1.2 — Critérios para classificar pesquisas (redesenhada). Cada critério é dicotômico; as caixas destacadas são a escolha do livro — a segunda alternativa em (a) e (d), a primeira em (b) e (c).
Métodos de coleta: o que se ganha e o que se perde.
MétodoA favorContra
entrevista pessoalmaior taxa de resposta; dá para esclarecer dúvidacaro, lento, viés do entrevistador
telefonerápido e barato; supervisão fácilcobertura ruim; questionário tem de ser curto
questionário autoaplicadobarato; sem viés de entrevistador; tema delicadonão resposta alta e seletiva
registro administrativocusto quase zero; cobre todosmede o que o registro mede, não o que você quer
aparelho (peoplemeter)mede comportamento, não memóriacaro; painel pode se comportar diferente por saber-se medido

Duas escolhas de projeto que aparecem aqui e importam depois:

Pesquisa sobre uso de drogas entre estudantes: entrevista pessoal ou questionário anônimo?

Questionário anônimo, quase certamente.

Na entrevista pessoal o viés de resposta é enorme — ninguém admite ao entrevistador. Você trocaria um erro que sabe medir (a não resposta maior do autoaplicado) por um que não sabe (a resposta falsa sistemática).

7 “Representativa” não é critério

Passo 7 de 12

Não há como verificar se uma amostra “se parece” com a população — se você soubesse a população, não precisaria da amostra.

O que se controla é o processo, não o resultado.

Amostra probabilística

Aquela em que toda amostra possível tem probabilidade conhecida de ser sorteada, e essa probabilidade é positiva para as unidades que interessam.

Só nessa condição existem viés, variância e intervalo de confiança. Fora dela, você tem um número sem medida de erro.

Jessen organiza isso cruzando dois critérios: há ou não mecanismo probabilístico na seleção; e o procedimento do amostrista é objetivo (protocolo inequívoco, que qualquer um repetiria igual) ou subjetivo.

Tabela 1.1 — Tipos de amostra (Jessen, 1978). Só a primeira célula permite calcular erro.
procedimentoseleção probabilísticaseleção não probabilística
objetivoamostras probabilísticas
ex.: estratificada proporcional
amostras criteriosas
ex.: a “cidade típica”
subjetivoamostras quase-aleatórias
ex.: amostragem por quotas
amostras intencionais
ex.: júri de especialistas, voluntários
Cuidado com a quota

Amostragem por quotas parece probabilística: o entrevistador tem de trazer 30 mulheres de 25 a 40 anos, e a amostra final bate com a população em sexo e idade.

Mas quem ele aborda dentro da quota é escolha dele — quem estava na rua, quem parecia acessível. Não há probabilidade conhecida, e não há erro calculável. A amostra “parece” a população nas variáveis controladas e pode ser muito enviesada em todas as outras.

Uma imprecisão que o livro assume de propósito: “amostra aleatória simples” e “plano aleatório simples” são usados como sinônimos. A rigor, a amostra é o resultado; o plano é o protocolo que a gera.

Uma enquete de site recebe 50 000 respostas. É melhor que uma amostra probabilística de 1 000?

Não — e o tamanho não ajuda em nada. Quem responde enquete de site é voluntário: mais interessado, mais extremado, mais conectado.

Esse viés de seleção não diminui com o número de respostas. Com 50 000 você tem um número muito preciso da opinião de um grupo que você não sabe definir.

A de 1 000 traz margem de erro de cerca de 3 pontos — e você sabe sobre quem ela fala.

8 Os cinco critérios de Kish

Passo 8 de 12

Todo plano probabilístico se descreve respondendo cinco perguntas de sim ou não.

25=32 combinações — e a AAS é a que responde “a primeira opção” em todas.

a. probabilidade de seleção da unidade amostral igual distinta b. unidade amostral uma unidade deresposta (elementar) elementos(conglomerado) c. divisão em estratos não estratificada estratificada d. número de estágios um único mais de um e. seleção das unidades aleatória sistemática 2⁵ = 32 planos · a primeira opção em todos (caixas destacadas) = Amostragem Aleatória Simples
Figura 1.3 — Critérios para classificar amostras probabilísticas (Kish, 1965; redesenhada). Os capítulos 3 a 9 percorrem várias das 32 combinações: AAS (3), estratificada (4), conglomerados (7), dois estágios (8), probabilidades desiguais (9), sistemática (7.8).
Os cinco critérios, e onde cada resposta leva no livro.
critérioprimeira opçãosegunda opçãocap.
a. probabilidade de seleçãoigualdistinta9
b. unidade amostrala própria unidade elementarconglomerado7
c. estratosnão estratificadaestratificada4
d. estágiosum sómais de um8
e. seleção das unidadesaleatóriasistemática7.8

A leitura. Escolher a primeira opção nos cinco critérios dá a AAS — o capítulo 3. Cada capítulo seguinte troca uma das respostas e estuda o que muda.

Classifique: sorteio proporcional ao tamanho, de setores censitários, dentro de cada região, e dentro do setor sorteio domicílios.
  • a. probabilidade distinta (proporcional ao tamanho) → cap. 9
  • b. unidade amostral é o setor, um conglomerado → cap. 7
  • c. estratificada por região → cap. 4
  • d. dois estágios (setor, depois domicílio) → cap. 8
  • e. aleatória

É a segunda opção em quatro dos cinco critérios — e é, mais ou menos, como se faz uma pesquisa domiciliar de verdade. Por isso o livro leva nove capítulos para chegar lá.

9 Os planos que vêm pela frente

Passo 9 de 12 · o mapa do livro inteiro

Cada plano existe para resolver um problema prático diferente — quase sempre uma limitação do sistema de referência ou do orçamento.

Ler esta lista agora faz os próximos capítulos parecerem inevitáveis em vez de arbitrários.

O que cada plano exige, e o que ele resolve.
planoexige do sistema de referênciaresolvecap.
AAS (com e sem reposição)lista completa das unidades elementares — um SR perfeitoo caso de referência; todo o resto se compara com ele3
Estratificadaa lista, mais a que estrato cada unidade pertenceprecisão; e resultado separado por parte da população4
Razão e regressãouma variável auxiliar conhecida na populaçãoprecisão, usando informação que você já tem5–6
Conglomeradossó uma lista de grupos — não das unidadesviabilidade e custo de campo quando não há lista7
Dois estágioslista de grupos; a lista interna se faz depoiso conglomerado grande demais para observar inteiro8
Sistemáticauma ordenação qualquer das unidadessimplicidade de execução no campo7.8
PPT (probab. proporcional ao tamanho)o tamanho de cada unidade, além da listaunidades muito desiguais em tamanho9
A troca que organiza tudo

Os planos se dividem em dois grupos por motivo:

Daí a assimetria: no capítulo 4 o EPA fica abaixo de 1, e no 7 ele costuma ficar acima.

Você quer pesquisar moradores de uma favela, e não existe cadastro de domicílios. Que plano sobra?

AAS está fora: exige a lista completa, que não existe.

A saída é conglomerados ou dois estágios: sorteie trechos do mapa (que dá para delimitar), e dentro do trecho liste e sorteie os domicílios na hora.

É exatamente para isso que o capítulo 7 existe — não por elegância teórica, mas porque o SR perfeito quase nunca existe.

10 Erro amostral: o exemplo eleitoral

Passo 10 de 12

A precisão depende de quantos você entrevista — não de que fração da população eles são.

E melhora com n: para cortar o erro pela metade, quadruplique a amostra.

Candidato com 56% na amostra

Margem de erro de 95%: 1,96pq/n.

nmargemintervalo
1009,7 p.p.46,3 % – 65,7 %
4004,9 p.p.51,1 % – 60,9 %
16002,4 p.p.53,6 % – 58,4 %

Duas leituras. Quadruplicar n corta a margem pela metade, todas as vezes. E N não aparece na conta: 1 600 entrevistas dão a mesma precisão numa cidade de 100 mil e num país de 200 milhões.

O livro imprime “53,5% a 59,5%” na última linha; é gralha — o intervalo correto é 53,6%–58,4%, centrado em 56.

Por que N some

Sem reposição existe um fator de correção (1−n/N), que faz a população pequena ser um pouco mais fácil.

Com n=1600 e N na casa dos milhões esse fator é praticamente 1, e desaparece. É por isso que a pergunta “mas eles entrevistaram só 2 000 pessoas num país inteiro?” tem resposta: sim, e está certo.

O capítulo 3 deduz esse fator; o 1 só antecipa a consequência.

Uma margem de 2 p.p. custa quanto a mais que uma de 4 p.p.?

Quatro vezes o tamanho da amostra — e, grosso modo, quatro vezes o custo de campo.

É a razão de quase toda pesquisa eleitoral parar entre 2 e 3 pontos: abaixo disso o preço cresce depressa demais para o ganho de informação.

11 Campo, preparação, e os erros que n não resolve

Passo 11 de 12

O erro amostral é o único que a teoria mede — e costuma ser o menor dos problemas.

Os outros não diminuem com n. Nenhum deles.

  1. Campo. Treinar e supervisionar entrevistadores; controlar as perdas; revisitar. É aqui que a população amostrada se afasta da referida.
  2. Preparação. Crítica dos questionários, codificação das abertas, digitação, tratamento de valores faltantes (imputação).
  3. Análise. Com os pesos do plano — nunca a média simples, a menos que o plano seja autoponderado.
Os erros não amostrais, e o que fazer com cada um.
erroo que éo que atenua
coberturao SR não corresponde à população alvomelhorar ou combinar cadastros; declarar a limitação
não respostaa unidade sorteada não responde — e quem não responde é diferenterevisita, substituição controlada, ponderação por pós-estrato
resposta incorretao informante não sabe, não lembra ou não quer dizerredação da pergunta, pré-teste, método de coleta adequado
processamentodigitação, codificação, programaçãodupla digitação, críticas automáticas
entrevistadorinduz a resposta, ou inventatreino, supervisão, reentrevista de controle
A não resposta é a mais perigosa

Porque ela é seletiva, não aleatória. Quem não atende trabalha fora; quem recusa desconfia; quem não devolve o questionário não se interessa pelo tema.

Aumentar n não corrige nada: você só ganha mais respostas do mesmo tipo de pessoa. O que corrige é ir buscar quem faltou.

Duas pesquisas: uma com n=400 e 90% de resposta; outra com n=4000 e 20%. Qual você prefere?

A primeira, sem hesitar.

A segunda tem margem de erro amostral menor — e um viés de não resposta que pode ser de dez pontos e que ninguém consegue medir. Você teria um número muito preciso, e possivelmente muito errado.

É a lição do capítulo: o erro que você mede não é o erro que você tem.

12 O relatório

Passo 12 de 12

Uma estimativa sem o plano que a gerou não é informação — é um número solto.

A ficha técnica é o que permite a outra pessoa julgar o seu resultado.

Objetivo

a pergunta, e para que decisão

População

alvo, referida, amostrada — e as perdas

Plano

qual, estratos, alocação, n

Coleta

método, período, taxa de resposta

Estimativas

com erro padrão ou IC, nunca sozinhas

Limitações

o que o número não diz

E o banco de dados junto: microdados com os pesos do plano, dicionário das variáveis, e o código de quem eram as unidades perdidas. Sem os pesos, ninguém consegue refazer a análise corretamente.

A frase que não pode faltar

Sobre qual população vale a conclusão. Não “os brasileiros aprovam”, mas “entre os adultos urbanos das capitais, entrevistados em domicílio entre 3 e 7 de março, com 12% de perda”.

É chato de escrever e é o que separa um relatório de uma manchete.

Uma matéria diz “pesquisa mostra que 62% apoiam a medida”. O que falta para você poder julgar?

Quase tudo: qual população, que plano, que n, que margem de erro, que taxa de resposta, como a pergunta foi redigida e quando.

Sem margem de erro, 62% pode ser 62 ± 2 ou 62 ± 15. Sem a redação da pergunta, pode ser outra pergunta.

✓ Fecho — agora feche a página

Escreva o capítulo de memória, de uma vez só

Papel, aba fechada, tudo o que lembrar — não passo por passo. Sai menos na hora e mais dois dias depois, e mais organizado.

Este capítulo cai em questão discursiva, então escrever em frases completas é o próprio treino da prova.

  1. Amostra ganha do censo em custo, prazo e qualidade por unidade.
  2. Objetivo → constructo → variável → parâmetro; R ≠ R¯.
  3. Unidade elementar, amostral, de resposta — e quando coincidem.
  4. População alvo ⊇ referida ⊇ amostrada; a inferência vale para a amostrada.
  5. Estrato é antes do sorteio (nh fixo); subclasse é depois (tamanho aleatório).
  6. Métodos de coleta trocam custo por controle; pré-teste sempre.
  7. Probabilística, não “representativa”: P(s) conhecida. Quota não é probabilística.
  8. Kish: cinco critérios, 25 planos; a primeira opção em todos é a AAS.
  9. Os planos se dividem em ganhar precisão e viabilizar o campo.
  10. Erro cai com n; N quase não entra (100 / 400 / 1600).
  11. Erros não amostrais não diminuem com n; a não resposta é seletiva.
  12. Relatório com ficha técnica e a frase sobre qual população vale.
Se travou em algum item

Volte ao passo e refaça só a checagem, sem reler.

Os itens 4 e 7 são os que mais caem: saber dizer sobre qual população vale a conclusão, e por que “representativa” não é um critério verificável.

+ Exercícios resolvidos

Depois do fecho · seis exercícios de discussão, com resposta comentada

Os exercícios do capítulo são de discussão: pedem que se aplique o vocabulário a situações concretas. Escolhi seis, cada um exercitando uma ideia: contar as palavras deste livro (1.2 — dá para conferir com um censo!), três maneiras de estimar uma proporção e o viés de tamanho (1.3), a “amostra da letra S” e o sorteio sistemático (1.6), escolha da UPA (1.10), carros ou estacionamentos (1.12) e método de coleta (1.13). As respostas são minhas; o livro não traz gabarito para este capítulo.

Exercício 1.2 — Quantas palavras tem o livro?

Desenhe um plano amostral, ressaltando os pontos discutidos neste capítulo, para responder: “deseja-se conhecer o número total de palavras existente no livro-texto Bolfarine e Bussab”.

Objetivo e parâmetro. O parâmetro é um total, τ=∑Yi. É preciso operacionalizar “palavra” (conta-se “AASc”? “2,5”? o cabeçalho de página?) — decido: sequência de caracteres separada por espaço que contenha ao menos uma letra, incluindo cabeçalhos e legendas. Unidade elementar: a palavra. População alvo: as palavras do livro. Não há lista de palavras, logo o sistema de referência tem de ser outro: a lista de páginas numeradas, 1 a 269 — cada página é um conglomerado de palavras, com tamanho conhecido só depois de contar. População referida: as palavras das páginas 1–269 (ficam de fora capa, sumário e listas, que estão em romanos — diferença alvo × referida, a declarar). Unidade amostral: a página (UPA); se as páginas fossem longas demais, um segundo estágio sortearia linhas (USA). Unidade de resposta: quem conta — o instrumento é a contagem direta, sem erro de resposta, mas com erro de mensuração (critério de “palavra”) e de digitação.

Plano. As páginas variam muito (capa de capítulo, tabelas, exercícios, páginas em branco no fim de capítulo), então há dois caminhos: estratificar por tipo de página (exige classificar as 269 antes) ou usar o sorteio sistemático, que espalha a amostra pelo livro inteiro e captura a mistura de tipos sem classificar nada — é o caminho que sigo. Sorteia-se um início entre 1 e 10 e tomam-se as páginas de 10 em 10: n=27 páginas (10% do livro). Estimador: τ^=Ny¯, com N=269; o erro padrão, tratando a amostra como AASs (aproximação usual para o sistemático — seção 7.8), sai da fórmula do capítulo 3, N(1−n/N)s2/n.

Uma realização. Início sorteado 7 → páginas 7, 17, …, 267. Contei as palavras de cada uma (com o critério acima, aplicado ao texto do PDF):

y <- c(402, 261, 349, 208, 250, 185, 206, 174, 334, 193, 205, 290, 242, 232,
       179, 194, 202, 191, 166, 212, 215, 200, 219, 161, 132, 281, 30)
N <- 269; n <- length(y)
N * mean(y)
## [1] 58911
ep <- N * sqrt(var(y) / n * (1 - n / N)); round(ep)
## [1] 3518
round(N * mean(y) + c(-1, 1) * 1.96 * ep)
## [1] 52016 65806

Estimativa: cerca de 59 mil palavras, com erro padrão de 3,5 mil (6%). Repare no 30 da última página sorteada (p. 267, quase em branco) e no 402 da primeira: é a heterogeneidade das páginas que infla s2; estratificar por tipo reduziria o erro. Censo (aqui é barato — o PDF conta sozinho): 58 500 palavras nas 269 páginas. O erro amostral desta realização foi de 411 palavras, 0,7%. Note o que o capítulo ensina: o censo foi possível porque a “coleta” custa nada; se cada página tivesse de ser contada à mão, a amostra de 27 páginas seria a escolha razoável — e o bom senso do livro (“se a precisão pede mais da metade da população, faça o censo”) se aplicaria ao contrário.

Exercício 1.3 — Proporção de meninos: três procedimentos

Quer-se a proporção de crianças do sexo masculino, com menos de 15 anos, moradoras de uma cidade. Três procedimentos: (a) para cada menino de uma amostra de n meninos (retirada da população de meninos menores de 15), pede-se quantos irmãos e irmãs ele tem; (b) toma-se uma amostra de n famílias e pergunta-se o número de meninos e meninas menores de 15; (c) procuram-se casualmente n crianças e, além do sexo do entrevistado, pergunta-se o número de irmãos e irmãs na faixa etária. Analise, justifique, diga qual usaria ou proponha outro.

O parâmetro é uma razão de totais: P=(nº de meninos)/(nº de crianças), e a unidade elementar é a criança. A pergunta de fundo é: qual é a unidade amostral e com que probabilidade cada família entra?

(a) A unidade amostral é o menino. Uma família com k meninos tem k chances de ser alcançada; famílias sem meninos nunca aparecem (erro de omissão do sistema de referência: a população referida é “famílias com ao menos um menino”). Somar “ele + irmãos” sobre a amostra e dividir pelo total de crianças superestima P duas vezes: pelas famílias só de meninas ausentes e pelo peso proporcional ao número de meninos. É o viés de tamanho — o mesmo que faz “tamanho médio da turma” dar maior quando se pergunta a alunos do que quando se pergunta a escolas. Corrigir exigiria ponderar cada família por 1/k, e mesmo assim as famílias sem meninos ficariam de fora. Além disso, precisa-se de uma lista de meninos, que não existe.

(b) A unidade amostral é a família (conglomerado de crianças), sorteada com igual probabilidade de uma lista de famílias/domicílios — que existe (setores censitários, cadastros). Toda família tem a mesma chance, inclusive as sem filhos (contribuem 0/0 e apenas gastam entrevista) e as só de meninas. O estimador natural é a razão r=∑meninos/∑crianças sobre as famílias da amostra — o estimador razão do capítulo 5, ligeiramente viesado mas consistente. É o procedimento correto.

(c) “Casualmente” = não probabilístico: as crianças encontradas na rua ou na porta da escola não são um sorteio, e o perfil (idade, sexo, horário, bairro) é o que o entrevistador alcançou — amostra intencional/criteriosa na tipologia de Jessen, sem teoria para o erro. Se as crianças fossem sorteadas com igual probabilidade da população de crianças, então o sexo da própria criança já seria um indicador não viesado de P, e os irmãos seriam informação redundante (a família entraria com probabilidade proporcional ao número de crianças; somar irmãos repetiria o viés de tamanho de (a), agora sobre o total de crianças, que se cancela na razão, mas não vale a pena).

Escolha: (b), com as famílias sorteadas de um SR de domicílios (em dois estágios se a cidade for grande: setores censitários, depois domicílios), e estimador razão. Se o custo por família for alto, use os registros de nascimento dos últimos 15 anos como SR alternativo — mas atenção à migração (população referida ≠ alvo).

Exercício 1.6 — A amostra da letra S

Uma rede bancária tem cerca de 20 mil funcionários especializados, removidos com frequência entre filiais. Quer-se uma amostra de 10% para uma pesquisa contínua nos próximos anos. Sortear 2 mil indivíduos seria caro (identificação). Propôs-se sortear uma letra (digamos S) e incluir todos os funcionários com sobrenome iniciado por ela — as fichas estão em ordem alfabética. Críticas? Sugira um plano “melhor”, ainda baseado na ordem alfabética.

Críticas. O plano é uma amostragem por conglomerados com um único conglomerado sorteado: as 26 letras são conglomerados de tamanhos muito desiguais (em português, S concentra Silva, Santos, Souza, Soares — talvez 15% ou mais dos sobrenomes — enquanto K, W e Y têm quase nada). Consequências: (i) o tamanho da amostra não é controlado — pode dar 3 mil ou 200, conforme a letra; (ii) com um só conglomerado não há como estimar a variância a partir da própria amostra; (iii) a inicial do sobrenome está associada à origem étnica e regional (sobrenomes italianos, japoneses, alemães se concentram em letras), o que pode se correlacionar com filial, cargo e progresso na carreira — a amostra da letra S não é uma “micro representação” e não há como saber quanto difere; (iv) como as remoções não mudam o sobrenome, a identificação ao longo dos anos é de fato fácil — essa é a única vantagem real do plano, e vale a pena preservá-la.

Plano melhor. Use a ordem alfabética como lista, não como estrato: sorteio sistemático com intervalo 10 — sorteie um início entre 1 e 10 e tome a 10ª ficha a partir dele, e daí de 10 em 10. Isso fixa n≈2000, espalha a amostra por todas as letras (e portanto por todas as origens de sobrenome), continua sendo trivial de identificar no arquivo (marca-se a ficha) e reproduz-se em cada ano com a lista atualizada. Melhor ainda: trate cada letra como estrato e faça o sistemático dentro de cada uma — garante os 10% por letra. Para a pesquisa contínua, o problema restante é a rotatividade: funcionários que saem e entram; o plano precisa de regra de substituição (novos admitidos entram na amostra pela mesma regra de 1 em 10 na ordem em que são arquivados).

Exercício 1.10 — UPA para o consumo médio de água por domicílio

Um pesquisador quer estimar o consumo médio de água por domicílio numa cidade. Discuta vantagens e desvantagens das UPAs: (a) unidade domiciliar; (b) blocos de domicílios (casa, prédio de apartamentos, vilas); (c) quarteirões.

Primeiro a pergunta que o capítulo ensina a fazer: que sistema de referência existe? Consumo de água é medido por hidrômetro, e a companhia de saneamento tem o cadastro das unidades consumidoras — se esse cadastro estiver disponível, ele é um SR quase perfeito para (a), e a “coleta” vira leitura de registro. Se não estiver (ou se o objetivo inclui domicílios sem ligação, poços, ligações clandestinas), a coleta é de campo e as três UPAs se comparam assim:

Recomendação: com o cadastro da companhia, (a). Sem ele, dois estágios com quarteirão como UPA (sorteado com probabilidade proporcional ao número de domicílios do censo) e domicílios como USA, estratificando os quarteirões por região/renda — é o que reduz a correlação intraclasse e controla o custo.

Exercício 1.12 — Pneus carecas em Pepira: carros ou grupos de carros?

Um especialista em trânsito quer estimar a proporção de carros com pneus carecas na cidade de Pepira. Pode sortear carros, ou grupos de carros em estacionamentos ou na rua. Vantagens de um e de outro? Qual usaria?

As populações. Alvo: os carros que circulam em Pepira. Um SR de carros individuais existe — o registro do DETRAN — mas inclui carros sucateados, vendidos para outra cidade, parados na garagem (erros de comissão), exclui os de fora que circulam ali (omissão), e sobretudo não permite chegar ao carro para olhar o pneu sem visitar o endereço do dono. Já os “grupos de carros” — estacionamentos e trechos de rua — são conglomerados naturais da população que interessa (carros em uso), com um SR fácil (lista de estacionamentos, mapa de vias) e inspeção barata: o inspetor olha 50 carros numa hora.

Sortear carros (do registro). Vantagem: AAS pura, cada carro com igual probabilidade, variância fácil. Desvantagens: a inspeção domiciliar é caríssima, o dono avisado pode trocar o pneu (efeito de mensuração), e a população referida (registrados) não é a alvo (circulantes).

Sortear grupos. Vantagem: custo baixíssimo por carro e população certa. Desvantagens: (i) o estacionamento é um conglomerado homogêneo — shopping, hospital, fábrica, feira atraem frotas de perfil diferente (renda, idade do carro) — logo a proporção varia muito entre grupos e pouco dentro, e precisa-se de muitos grupos, poucos carros em cada; (ii) o tamanho do grupo varia e muda com a hora — a estimativa deve ser uma razão (carros carecas / carros inspecionados); (iii) carros em estacionamento pago tendem a ser mais novos; carros na rua à noite são os que dormem na rua. É preciso estratificar por tipo de local e horário e sortear os grupos com probabilidade proporcional ao movimento.

Escolha: grupos, em dois estágios — sorteio de locais (estratificados: estacionamentos comerciais, de trabalho, vias públicas de bairros de renda distinta; e por período do dia) e, dentro de cada local, sorteio sistemático de carros (1 em cada k vagas). Um mesmo carro pode aparecer em dois locais (probabilidade desigual de inclusão), o que se declara como limitação. A alternativa “carros do DETRAN” só valeria se a inspeção fosse obrigatória e centralizada (vistoria), e aí a amostra seria de vistorias.

Exercício 1.13 — Entrevista pessoal, telefone, correio ou internet?

Discuta os méritos de cada método de coleta para: (a) um diretor de marketing de uma rede de TV quer a proporção de pessoas do país assistindo a determinado programa; (b) um editor quer a opinião dos leitores sobre os tipos de notícia do seu jornal; (c) um departamento de saúde quer o número de cachorros vacinados contra a raiva no ano passado.

O critério, sempre: que SR cada método pressupõe, que população amostrada ele produz, e quanto custa. Correio e internet têm resposta baixa e autosselecionada; telefone alcança só quem tem telefone (e atende); entrevista pessoal alcança todos, ao maior custo.

Sobre esta versão. Mesmo conteúdo do capítulo 1 de Bolfarine & Bussab (págs. 1–36), reorganizado em doze passos curtos, cada um com o caso concreto antes da abstração e uma pergunta de recuperação no fim. As figuras 1.1 (recortada do livro), 1.2 e 1.3 (redesenhadas em SVG) foram mantidas. O exemplo eleitoral da pág. 21 sai impresso com o intervalo “53,5% a 59,5%” para n=1600; o correto, centrado em 56%, é 53,6%–58,4%. Os exercícios do capítulo são de discussão e o livro não traz gabarito — as respostas são minhas.